LetrasO Mito e a Caverna

ÀIYÉ, Vitor Brauer

Última atualização em: 20 de Março de 2020
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NÃO É o primeiro grito que ouço É a primeira palavra que ouço, a linguagem volta a mim

É o primeiro som que me lembro, antes não conseguia falar, antes não conseguia pensar Imóvel Corpo sobre corpo sobre corpo ao lado de corpo Braço direito sobre costas de outro corpo sobre outro corpo Braço esquerdo colado ao corpo sobre outro corpo, sobre outro corpo Pernas unidas esticadas enfiadas embaixo de outro corpo Cabeça sobre costas sobre pés esticados ao lado de outro corpo, um outro corpo Ouço também o som de pele queimando, de carne queimando, de osso queimando De ar evaporando, de corpos derretendo De pele virando fogo, de carne virando fogo, de osso virando fogo De suor virando ar, de ar virando fogo, de líquido escorrendo Escorrendo, escorrendo, escorrendo E virando fogo Impossível estar debaixo de tanto corpo Imóvel porque todos tentam se mexer e ninguém se mexe De quando em quando uma cachoeira de sangue me banha Sangue misturado com suor, misturado com lágrima E ninguém fala nada, e ninguém come nada, e ninguém pensa em nada, e ninguém tenta nada, e ninguém faz nada Apenas tenta se mexer Pra lados distintos e distantes Mas toda gente ouviu quando alguém finalmente um dia gritou NÃO E nos acordou de nossa imobilidade Tudo porque alguém algum dia disse não E me acordou da minha imobilidade No entanto permanecemos imóveis Tentando nos mexer Tentando ir e vir, pra lados distintos, pra lados distantes Mas se todos nos movermos para o mesmo lado, talvez consigamos todos sair desse lugar Mas se então todos os corpos se moverem juntos para o mesmo lado Quem vai sobrar do outro lado? Fumaça O tempo é um céu cinzento e logo vem a tempestade Quem nasceu com liberdade já não sabe o quanto custa Imagina então, como era bom, na época de Zaratustra? O sangue de quem gritou não pra que o filho não precisasse mais gritar não Mas a criança, cega, não entende nada Conta mil vezes a mentira inventada e é condecorada por boa conduta Foi assim que Maria Madalena virou puta E tantas outras depois dela Pela boca do homem, a boca que come, a boca do inferno A mesma que constrói o mito Mas os mitos caem por terra Os mitos caem por terra, um após o outro, quando encontram a verdade E a verdade chega, minha amiga, ainda que tarde Ela ecoa pela boca de quem um dia disse não E repetiu Repetiu Afirmou E gritou até que todes ouvissem E esse NÃO ecoou pelas chamas E esse NÃO atravessou os corpos e ocupou praças Esse NÃO tomou avenidas e derrubou impérios Não vou consentir Não vou permitir Não vou me adequar Não vou me adaptar Não vou obedecer Não vou recuar A voz resiste e a fala insiste dentro de quem vive Hoje não, hoje não, hoje não Ele não Em todo não há uma revolução Há uma revolução a cada não Em todo não há uma revolução Há uma revolução a cada não Pode ser que tudo isso não passe de um sonho E vamos acordar quando todos dissermos juntos: Não

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